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Gravidez

Bebês/ Gravidez/ Maternidade

Comparação e impaciência: ladrões da felicidade

Qual é o segredo para uma maternidade mais positiva? O que pode ajudar mães de primeira viagem a terem uma experiência mais leve e harmônica? Rede de apoio, divisão das tarefas domésticas, familiares que respeitam as escolhas dos pais, amigos que ouvem sem julgar… Existem muitas coisas, pequenas e grandes, que podem ajudar o dia-a-dia de uma mãe. Mas uma mãe pode ter todas essas coisas e ainda assim não se sentir feliz, bem como uma mãe pode ser feliz e realizada (mesmo em meio às dificuldades) sem ter nada disso. O que eu queria falar mesmo aqui era sobre duas coisas que roubam toda a sua energia e a sua felicidade; essas duas coisas estão relacionadas, se aplicam a todos, porém são muito gritantes para as mães e em especial as mães de primeira viagem: *comparação* e *impaciência*. 

Pense em toda a sua vida até aqui, e como cada pequena decisão que você tomou influenciou na sua jornada até esse momento, construindo o que você é hoje. Você é um ser único, com experiências pessoais únicas. Quando juntamos todos os indivíduos da família, cada um com suas experiências únicas, e um bebê que também tem suas necessidades únicas, temos uma dinâmica que é como uma impressão digital, um floco de neve… tão exclusiva que nenhuma outra família terá igual. Então como ainda teimamos em fazer comparações, entre famílias e bebês? É claro que, olhando de fora, a grama do vizinho sempre vai ser mais verde. Você não conhece os desafios daquela família, daqueles indivíduos. 

O bebê da vizinha dorme a noite toda! Mas ele já tem 10 meses e ainda não engatinha. A bebê da prima começou a engatinhar com 6 meses, come de tudo, mas acorda 10 vezes durante a noite. O bebê da amiga toma leite artificial, está se desenvolvendo normalmente mas não quer comer sólidos. O que todos esses bebês têm em comum? Uma mãe que sofre e até se culpa por alguma razão que está totalmente enraizada em comparações. Quando, na realidade, não há nada de anormal em nenhum dos casos, apenas bebês diferentes que nasceram em lares diferentes, com dinâmicas diferentes. 

A impaciência vem de não saber esperar o tempo da natureza, o tempo do bebê. Mais uma vez, essa impaciência de querer ver o bebê andando e falando com 6 meses é fruto da comparação, por isso as duas coisas estão relacionadas. E somos tão impacientes que até na gestação queremos interferir, agendando cesáreas e decidindo pelo bebê quando é a hora certa pra nascer… 

A comparação e a impaciência são ladrões da felicidade. Porque direcionam tua energia para o exterior, tiram o teu foco das coisas que são importantes e te impedem de viver o momento presente. É preciso muita vigilância para manter esses ladrões fora da tua casa; é uma luta diária que alguns dias ganhamos, outros dias perdemos. Mas é importante continuar lutando. 

Viver no presente; conectar-se ao seu bebê e suas necessidades únicas, inerentes à sua personalidade e individualidade; silenciar os julgamentos e a culpa; respeitar o tempo da natureza; exercitar a gratidão. Essas são as batalhas diárias de uma maternidade positiva. 

Gravidez/ Maternidade

Por uma maternidade mais positiva 

Maternar é difícil sim. Rola medo, insegurança, uma puta solidão… E cansaço, muito cansaço. Isso aí é o pacote padrão. Acontece que cada pessoa tem uma experiência de vida muito particular, e existe uma série de fatores que podem ajudar ou atrapalhar na vivência da mulher que se torna mãe – esses são os “extras”: situação financeira, rede de apoio (ou ausência total de uma), saúde (física e mental), participação do pai na criação do bebê, educação /acesso a informação de qualidade, e até mesmo a forma que aquela mulher mãe vivenciou a experiência do parto. Uma mulher que sofre violência obstétrica tem mais chances de ter dificuldades iniciais com a amamentação e problemas na recuperação pós parto, o que certamente irá deixar muitas impressões negativas em sua experiência como um todo. 

Mas deixa eu te dizer uma coisa: na verdade, não é que a maternidade seja difícil. *Viver* é difícil. Na maternidade a gente se dá mais conta disso, porque fica tudo muito exposto, à flor da pele: sentimentos muitas vezes contraditórios, incertezas, culpa. Tudo potencializado pelo desejo de fazer sempre o melhor pela cria. Claro que, da mesma forma que os sentimentos negativos são potencializados, os sentimentos positivos são se transbordar o coração: amor, de um jeito que você nunca imaginou. Devoção. Gratidão. Um sentimento de estar (quase) sempre maravilhado pela mágica que é o desenvolvimento de um bebê. 

A forma que a gente encara isso tudo é que faz a diferença. No dia em que você enxergar as dificuldades da vida como um mecanismo de aprendizado e melhoramento pessoal, quando você conseguir extrair o que cada experiência tem a te ensinar e o lado positivo de cada coisa, você se sentirá livre. Livre, porque você sai de uma posição de vítima para uma posição de poder, de protagonista. 

“Ah, mas isso que estou passando não está certo, não é justo comigo.” Quando a gente se apega a esse pensamento, ficamos inertes, e com a inércia não tem mudança, não tem progresso. É como se tivesse uma âncora presa nos nossos pés. Eu sei que isso parece papo de auto-ajuda, mas que seja, porque não tem coisa melhor que enxergar um padrão que se repete na nossa vida e conseguir modificá-lo. 

Vai ter momento difícil? Vai. Tem como ser “zen” o tempo inteiro? Eu não sei, eu mesma não consigo. Mas tento. Respiro fundo, penso em soluções. Plano A, plano B, plano C. “Putz, não acredito que ela já acordou. Tá cedo demais pra pensar”. Respira, não pensa muito então. Olha bem pro rostinho desse bebê, e lembra que daqui uns anos tudo será diferente e você sentirá saudades… 

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A sua barriga jamais será a mesma

Uma das coisas que a gente ouve e nos dá medo quando estamos grávidas pela primeira vez é que “a sua barriga jamais será a mesma”…

Sim, a minha barriga nunca mais será a mesma de antes. Antigamente, quando passava as mãos pela minha barriga, eu sentia por vezes vergonha ou insegurança. A relação que tinha com o meu corpo não era saudável: eu me sentia incapaz, por não alcançar o ideal das revistas. Hoje, quando passo as mãos pela minha barriga, eu sinto orgulho! Sinto uma extrema admiração pelo meu corpo, por ter sido um casulo perfeito, capaz de gerar um ser humano e sustentá-lo por 9 meses. Me vêm apenas lembranças boas, e até saudades… Como era bom sentir a vida crescendo na minha barriga! Tanto movimento, tanta expectativa. Acordar com pequenos chutes, tentando adivinhar a posição em que o bebê estava. 

Sim, a minha barriga nunca mais será a mesma de antes. Quando olho no espelho, não vejo uma pele flácida ou estrias; vejo um receptáculo fantástico que abrigou o meu bebê por 9 meses. Vejo uma máquina maravilhosa de criar e sustentar vida, aperfeiçoada por milhões de anos de evolução, capaz de transformar minúsculas células em um ser humano perfeito, novo em folha. 

Eu não sinto vergonha das minhas marcas: pelo contrário. Carrego-as com o orgulho de quem de repente descobriu uma força oculta, um poder que estava adormecido. Meu corpo é fantástico!

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Relato de Parto: meu parto natural na água

Foi na madrugada do dia 07 de setembro, o dia em que completava 39 semanas de gravidez, quando comecei a sentir as primeiras contrações. O dia anterior foi engraçado porque alguma coisa dentro de mim parecia dizer que aquele seria o meu último dia grávida; eu saí pra dar uma volta e fazer umas compras, andei bastante (até acredito que isso influenciou) e aproveitei pra curtir um pouco aquele momento. Me maquiei, arrumei o cabelo e tirei umas fotos legais em casa, sozinha, com a máquina no timer mesmo, pra registrar (embora ainda nem imaginasse) aquele que seria o meu último dia com o barrigão da Alice.

um dia antes do parto 🙂

Pois bem; quando fui deitar naquela noite eu comecei a sentir uma coisinha, parecia uma cólica menstrual. Pensei “deve ser só minha ansiedade trabalhando”, mas a coisinha voltava a cada 5, 6 minutos mais ou menos… Comecei a me empolgar – “ai meu Deus, será que chegou a hora?”

Esperei mais de meia hora na cama, contando os intervalos, e já não tinha mais dúvidas; a hora tinha mesmo chegado! Mas eu sabia que poderia demorar muito, ainda estava bem no comecinho. Saí do quarto de fininho e vim pro escritório pra me entreter com alguma atividade, já que eu sabia que não ia conseguir mais dormir. Fiquei um pouco no computador, pintei as unhas, ouvi música e dancei (reggae!), dei uns cochilos. Assim passei a noite toda, no primeiro estágio do trabalho de parto. As contrações ainda eram irregulares, mas não passava mais que 8 minutos. Sempre voltavam.

Por volta das 7 da manhã fui acordar meu marido pra avisar que o dia tinha chegado! Ansiedade, expectativa… Mas estávamos bem tranquilos e conscientes de que poderia levar ainda um bom tempo. Fiz uma receita de brownie vegano entre uma contração e outra, e assim foi passando a manhã. Procurei ficar ativa, em pé, me movimentando a maior parte do tempo. As contrações estavam ficando mais fortes e com um intervalo menor.

A midwife nos orientou a ligar só quando estivesse com contrações regulares durando 1 minuto, com um intervalo de 3 a 4 minutos entre elas por cerca de 2 horas. Não lembro bem a hora que liguei, acho que eram mais ou menos 11:00. Ela disse que iria me ver assim que possível, pois estava visitando outras parturientes. Pela minha voz e pelo que relatei, o trabalho de parto ainda poderia demorar bastante (ela não viu urgência).

Visita da midwife

pouco antes de sair pra casa de parto

pouco antes de sair pra casa de parto

Pouco tempo depois eu senti a bolsa “estourar”. Foi engraçado, e bem diferente do que a gente costuma ver nos filmes! Senti um líquido descer, mas não foi uma quantidade tão grande. Quando fui ao banheiro deu pra ter certeza que não era xixi. Também vi o que parecia ser o tampão. Aí sim, a coisa parece que ficou séria: as contrações foram ficando bem mais fortes. Liguei novamente pra midwife pra contar que a bolsa tinha estourado, ela disse que estava a caminho. Ela chegou aqui às 13:00 pra me ver (12 horas em trabalho de parto). Me examinou, e disse que eu estava com 3 a 4 centímetros de dilatação. Fiquei até um pouquinho desanimada porque achava que estava mais dilatada, a essas alturas! Mas tudo bem. Ela falou que ainda poderia demorar bastante, que ficasse sossegada. Combinamos de nos encontrar na casa de parto. Ela falou que chegaria às 17:00, mas que poderíamos ir antes se quiséssemos – era uma decisão nossa. Resolvemos ir logo (felizmente, como vocês vão ver).

Uma observação: a casa de parto que escolhemos fica dentro de um hospital. É um lugar bem aconchegante, e a gente se sente como se estivesse em casa mesmo, ou melhor, num hotel. O quarto tem uma cama, sofá, mesinha, banheiro com banheira, e todo o suprimento básico pra receber o bebê e cuidar da mãe. Mas tem toda a segurança de estar dentro do hospital, para qualquer eventualidade.

Por volta das 15:00 eu e o marido pegamos as coisas e fomos nos encaminhando pra o hospital. O trajeto de táxi foi bem sofrido por causa das contrações.

Na casa de parto

na partolândia

Quando chegamos no quarto, as contrações já estavam bem intensas. A enfermeira foi super prestativa, perguntando o que eu precisava, e eu só pensava em entrar na banheira, pra ver se aliviava um pouco as dores. Ela preparou a banheira, acho que entrei era mais ou menos 15:40. Até aquele momento eu tava levando tudo numa boa, sabe? Ainda me comunicava com as pessoas e tudo, risos… Mas assim que entrei na banheira, parece que as contrações ficaram ainda mais fortes. Considerando que a minha dilatação ainda estava em 3/4 cm há poucas horas (e levou 12h pra chegar nisso), eu comecei a ficar bastante ansiosa, e tive medo pela primeira vez. Achei que não iria aguentar aquela intensidade por muitas horas.

Foi aí que tive vontade de mudar de posição, porque sentada na banheira como eu estava não rolava mais. Fiquei de joelhos segurando num “poste” que tinha junto da banheira, e quando veio a contração eu não consegui evitar o impulso pra fazer força. Fiquei surpresa porque não achava que já estava na hora, mas era isso, a cada contração vinha uma “vontade” imensa de fazer força, era impossível de evitar.

O mais interessante dessa etapa é que eu percebi que quando mudei de posição a dor ficou muito mais suportável. É como se antes eu estivesse atrapalhando o processo natural do meu corpo. Foi como um “let it go” sabe? Como soltar o freio. Assusta, porque o corpo sai “desenfreado” no processo, mas é libertador! O problema é que a minha midwife tinha combinado de só chegar lá por volta das 17:00, então a enfermeira ficou me aconselhando a respirar, e tentar não fazer força. Tive medo que a bebê nascesse antes dela chegar. Pedi pra enfermeira ligar pra ela, assim a midwife se apressou e chegou lá às 16:15.

Quando a midwife me examinou, e eu já estava com a dilatação completa. Ela até se surpreendeu. Então começou a fase ativa do parto, o que de fato (como já tinha lido em muitos relatos) trouxe um alívio por duas razões: agora eu sabia que estava realmente perto de chegar ao final, e eu finalmente podia participar mais ativamente do processo.

o momento mais lindo

Alice nasceu meia hora depois, às 16:48, dentro da água. Foram apenas 30 minutos de puxo. Na minha memória, parece que foram 2 minutos, porque eu não lembro direito; como algumas pessoas dizem, eu estava pra lá da partolândia nessa hora. Tudo é meio nebuloso. Só lembro de fazer uma força danada sempre que vinha uma contração, e de segurar a mão do meu marido com tanta força que achei que ia quebrar (a mão dele). Ele foi o meu principal apoio, fisicamente e emocionalmente. Acompanhou cada minuto, cada etapa, tentou me ajudar de várias maneiras, segurou minha mão o tempo todo e foi me contando o progresso, porque eu nem queria olhar.  O segundo momento mais lindo daquele dia, pra mim, foi vê-lo segurando nossa menininha. Só perde pro momento que eu a tirei da água assim que ela nasceu <3

A terceira fase

Quando tirei ela da água, éramos as duas chorando, olho no olho, a coisa mais linda e a emoção mais intensa da minha vida até hoje. Nunca vou esquecer esse momento, esse primeiro contato, porque quando a segurei foi muito surreal! Me ajudaram a sair da banheira com ela nos braços, ainda ligada em mim pelo cordão umbilical. Deitei. Colocaram ela no meu peito e ela não demorou nada pra começar a sugar. O cordão só foi cortado depois que parou de pulsar. Papai cortou.

Pouco tempo depois chegou a hora de expulsar a placenta, e essa parte foi bem chata porque eu não esperava que ainda tivesse que fazer força (risos). Umas 2 ou 3 contrações depois ela saiu e foi um alívio tão grande! Uma sensação super estranha, na verdade, porque dá esse alívio de uma coisa que você nem notou que estava te “enchendo”. Uma sensação boa de esvaziar.

Levei 2 pontos de laceração. Um interno e um externo. Tinha medo disso, mas olha que foi bem melhor do que eu esperava.

Levaram ela pra pesar: 3.630 kg de lindeza. Aí finalmente pudemos descansar um pouco e curtir nossa bebê com privacidade. Fui orientada a tomar bastante líquido pois tinha que fazer xixi antes de voltar pra casa, só pra garantir que estava tudo bem. Mais ou menos 2 horas depois a enfermeira veio me ajudar a tomar banho e logo estávamos voltando pra casa.

A minha decisão de ter um parto natural foi baseada em muito estudo, muita leitura que me levou a ter a certeza de que essa seria a melhor opção tanto para minha bebê quanto para mim. Uma decisão muito mais racional que emocional. Não me considero corajosa ou melhor que ninguém por ter feito essa escolha. Mas eu não posso mentir: essa experiência me mudou, me empoderou de uma forma que nenhuma outra experiência seria capaz. Já em casa, segurando minha bebê nos braços, eu me sentia uma super mulher. Essa sensação de poder não tem preço! Naquelas horas mais difíceis do puerpério, eu me lembrava de que fui capaz de passar por todo aquele processo, e isso me fazia sentir forte, capaz de vencer qualquer coisa. É por isso que você vai me ver sempre defendendo o parto natural, e é por isso que eu vou sempre recomendá-lo para qualquer amiga, qualquer mulher que me pergunte a respeito. Anestesia? Você não precisa. Você consegue. Hoje, pra mim, é mais que uma preferência simplesmente racional, baseada em evidências médicas e pesquisas científicas. É também, e ainda mais, uma decisão emocional, pelo grande impacto e empoderamento que essa experiência é capaz de trazer para uma mulher.

Nota: se você tem curiosidade sobre gravidez e parto na Holanda (onde moro), eu falei sobre isso no meu post anterior: pré-natal, parto e pós-parto na Holanda.

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Gravidez na Holanda – pré natal, parto e pós parto

Uma das maiores curiosidades dos meus amigos e familiares brasileiros é com relação ao sistema de saúde holandês, e como são tratados o parto e a gravidez na Holanda. Realmente, o sistema de saúde aqui é bastante diferente do Brasil, e quando se trata de gravidez as diferenças são gritantes! Antes de mais nada, é bom saber que todos os residentes a partir de 18 anos são obrigados a pagarem um seguro de saúde mensal; o valor do seguro básico é tabelado pelo governo, mas voce pode escolher entre diversas empresas que provém o serviço. Esse seguro básico custa uma média de 100 euros por mês, e cobre muita coisa incluindo medicamentos (nem todos, mas uma grande parte sim). O acompanhamento pré-natal, parto (você pode escolher como e aonde) e cuidado pós-parto (1 semana, enfremeira na sua casa) são todos cobertos pelo seguro básico.

De uma maneira geral, tudo aqui parece ser mais simplificado; veja, por exemplo, o uso das bicicletas. Existem mais bicicletas do que pessoas em Amsterdã! Ter carro aqui é ou um luxo ou uma verdadeira necessidade. No caso de necessidade, pode ser para trabalho, ou porque a pessoa mora muito longe, em uma cidade diferente da que trabalha – mesmo nesses casos é de certa forma um luxo, já que o transporte público é excelente e se paga bem caro pra estacionar o carro no centro de Amsterdã, por exemplo.

O sistema de saúde também segue essa filosofia, que parece ser bem típica do Holandês. Não se prescrevem exames e remédios à toa, e você só vai para um especialista após ser encaminhado pelo “médico de família”. Quando você se muda para cá, precisa se registrar em um consultório próximo da sua residência. Qualquer necessidade médica será vista primeiro por esse médico. As consultas são bem rápidas – 15 minutos marcadinhos no relógio. Tudo muito objetivo e prático. Se tiver mais perguntas, precisa marcar outra consulta.

Quando descobri estar grávida, depois de fazer 3 testes de farmácia e todos saírem com resultado positivo, eu marquei a consulta com a médica de família que nos atendia na época. Eu esperava que ela fosse passar exame de sangue (o beta HCG) pra ter certeza, e pra eu ter alguma “prova em papel”, sabe? Acostumada com o Brasil, onde tudo se tem que provar com documentos e recibos, eu já estava contando com isso. Mas não foi assim que aconteceu. Ela só me passou a orientação de começar a tomar vitamina pré-natal, que eu podia comprar em qualquer farmácia (sem necessidade de receita), me deu os parabéns e me recomendou um consultório de midwifes (parteiras, mas espera que vou explicar). Pronto, essa foi a minha única ida ao médico durante toda a gestação.

Na Holanda, gravidez (quando não é de risco) é vista como algo absolutamente natural, e não uma doença. Deve sim, ser monitorada para se ver o progresso, a saúde da mãe e o desenvolvimento do bebê, mas para isso as midwifes são a melhor opção: fazem a gente se sentir bem à vontade, dão um tratamento extremamente humanizado e respeitoso quanto às escolhas de cada grávida e são altamente qualificadas no quesito médico (elas têm uma formação própria que parece ser um misto de enfermagem e medicina). Eu não gosto de usar a tradução literal “parteira” porque a idéia que a gente tem (pelo menos, a idéia que eu tinha) de uma parteira no Brasil é bem diferente das midwifes aqui.

A primeira consulta durou 1 hora, foi a mais longa, porque ela explica como tudo funciona (o pré-natal, exames, uma idéia geral sobre opções de parto aqui etc) e pergunta várias coisas (relacionadas a saúde e genética) pra traçar um perfil médico e ver se há alguma probabilidade de complicações na gravidez ou de problemas genéticos para o bebê. Se for constatado que a gravidez pode ser de risco, a grávida é encaminhada para um obstetra, mas se a gravidez não é de risco as midwifes farão o acompanhamento até o pós parto.

Pré-Natal

Logo na primeira consulta recebemos um envelope onde vamos guardar todos os exames e documentos, e devemos levá-lo para todas as consultas. Nada sofisticado, é bem simples mesmo, de um lado tem espaço para anotarem as datas das próximas consultas, e do outro lado tem um resumo geral de como acontece o pré-natal e o que esperar de cada consulta.

O “envelope”. O consultório de midwifes que me acompanhou foi o “Verloskundigen 101” , que em Holandês significa “Parteiras 101”

Também recebemos dois livrinhos, um sobre gravidez e o outro sobre amamentação. Esses livrinhos são parte de uma coleção que acompanha o bebê desde a gravidez até a adolescência. Eles possuem orientações para os pais, muitas dicas importantes, e explicam também como tudo funciona por aqui (parto, primeiros exames, vacinas, acompanhamento do bebê etc). O melhor é que eles têm os livrinhos todos em inglês também, para as famílias que não falam holandês. Isso é uma iniciativa do próprio governo, não é de uma instituição ou hospital específico. Achei uma iniciativa super legal, para garantir que as futuras mães tenham acesso à informação, independente de status ou classe social.

Growth Guide. Na esquerda, os dois primeiros volumes que você recebe no início da gravidez. Na direita, o terceiro e quarto volumes, que você recebe depois do parto.

O primeiro ultra-som é feito com 10 semanas, junto com exames de sangue. Opcionalmente, você pode fazer o exame combinado que indica a probabilidade do bebê ter defeitos congênitos incluindo síndrome de dawn. Esse exame combinado se chama assim porque é feito com uma ultrassonografia e um exame de sangue. O seguro não cobre esse exame. Nós optamos por fazer. Ele é feito por volta da semana 12.

Uma segunda ultrassonografia é feita com 20 semanas, pra ver o desenvolvimento do bebê. Caso não haja nenhuma indicação de problemas no restante da gravidez, ou nenhum motivo para dar mais uma olhadinha, eles não pedem mais nenhum ultrassom. Oficialmente, são 2 ultrassonografias. Eu fiz mais porque quis fazer o exame combinado e também quis fazer a ultrassonografia 4d. Além disso, na ultrassonografia de 20 semanas a médica achou que a minha placenta estava um pouquinho baixa, então foi recomendada uma nova ultrassonografia com 30 semanas (em 90% dos casos a placenta se ajusta com o crescimento do útero, e foi o que aconteceu).

Alice na ultra-som 4d

Parto

Aqui na Holanda existem basicamente 3 opções para você ter o seu bebê: em casa, em uma casa de parto ou em um hospital. Ao contrário do que muita gente de fora pensa (eu também achava isso), os partos em casa, apesar de serem mais comuns aqui que na maioria dos países, não são a maioria por aqui. A maioria das mulheres opta por ter o parto em hospital. Mas olha, quando falo parto em hospital, é parto normal mesmo viu? Aqui a gente não escolhe ter parto por cesareana. Isso acontece apenas quando há indicação médica, onde há risco para a mãe ou para o bebê.

O parto humanizado aqui é o padrão. Não se faz episiotomia. Indução de parto só acontece passadas 42 semanas de gestação ou caso haja algum risco e seja realmente necessário adiantar o processo natural.

As casas de parto são uma opção muito legal porque são um meio-termo entre o parto em casa e o parto no hospital. Os quartos têm uma atmosfera bem caseira, parecem um hotel, geralmente possuem banheira onde você pode (tentar) relaxar pra aliviar as dores das contrações e também pode optar por ter o bebê dentro da água. Para o meu parto, optei por uma casa de parto que fica dentro de um hospital, em um andar separado, e também optei por um parto na água – isso foi resolvido na verdade diretamente com a minha midwife. O que acontece é que as casas de parto oferecem apenas a estrutura e o apoio de uma enfermeira, mas a sua midwife é que vai fazer o parto. O fato da casa de parto ser dentro do hospital nos deu bem mais segurança. Felizmente não precisei de nenhuma intervenção médica, mas para uma mãe de primeira viagem essa sensação de segurança, ainda assim tendo toda a atmosfera de um parto em casa, faz toda a diferença.

suíte onde a Alice nasceu <3

Se você tem a intenção de usar anestésicos como a epidural, precisa optar pelo hospital, para ter o acompanhamento necessário. No hospital, as mães ficam em quartos individuais, e ao nascer os bebês são mantidos no quarto com a mãe o tempo inteiro. Você também pode ter um parto natural, sem anestésicos, no hospital.

Outras práticas comprovadamente muito benéficas para os bebês que são comuns aqui, independentemente se você opta por parto em casa, na casa de parto ou no hospital: o cordão umbilical só é cortado após parar de pulsar; o bebê é levado para o peito da mãe imediatamente após nascer, e o contato pele-a-pele é respeitado e encorajado na primeira hora (pesagem e outras coisas são feitas depois). Os bebês não são aspirados e não é dado banho.

Quando tudo corre bem, a mãe é liberada pra ir pra casa em 2 ou 3 horas depois do parto. Na casa de parto em que tive meu parto, eles pedem gentilmente que você respeite esse tempo para não ocupar o quarto mais tempo que o necessário, afinal outras mamães podem precisar da vaga. Eu estava de volta em casa 3 horas após Alice ter nascido, o que foi ótimo na minha opinião.

Pós Parto

Uma das melhores coisas de se ter um bebê na Holanda é o cuidado pós parto que recebemos. Por uma semana, uma enfermeira vem diariamente na nossa casa para ajudar com o bebê e ensinar um monte de coisas pra gente. Eu sinceramente não sei o que seria de nós sem essa ajuda! Mesmo tendo lido uma pilha de livros sobre gravidez, parto e bebês (além de ter passado horas e horas lendo blogs na Internet sobre esses assuntos), a prática é sempre muito diferente da teoria, e é muito difícil se sentir segura quando você tem experiência zero com bebês. A cada dia, era um novo drama que ela resolvia: ela chegava de manhã, e eu ia contar o que tinha acontecido de noite (sempre uma novidade – bebê não queria dormir, bebê chorou por horas a fio, bebê fez cocô estranho) e a enfermeira ia me tranquilizar e explicar que era tudo normal e dar orientações de como resolver os problemas ou como lidar com a situação. Ela também insistia para que eu descansasse e me fazia prometer que iria tirar uma soneca à tarde quando a bebê dormisse 😀

Recadinho da enfermeira – ela dizia que eu era “too sweet” por deixar Alice dormir no peito e ficar com ela no braço muito tempo, de madrugada. “O plano” era colocar ela no berço assim que ela dormisse, e ficar repetindo até ela dormir de vez. Tentei, mas isso só me cansou e me estressou.  Com o passar do tempo ela aprendeu  sozinha a diferenciar o dia da noite, e começou a dormir melhor. Mas o que me salvou nessa época foi começar a trazer ela pra dormir na cama comigo. 

Recebemos mais um livrinho da coleção (conhecido aqui como “o livro verde”) com um monte de dicas para o pós parto, e uma parte do livro que era como um diário, para que a enfermeira anotasse tudo sobre o desenvolvimento do bebê e a recuperação da mãe. Nesse “diário” também tem uma área pra anotarmos as mamadas e fraldas do bebê, assim a enfermeira monitora o progresso da amamentação pra ter certeza que o bebê está recebendo toda a nutrição que precisa. A enfermeira inclusive pede para guardarmos as fraldas pra que ela cheque pela manhã, assim ela tem uma idéia melhor. Ela também faz pesagens para ver o ganho de peso da criança. Tudo é anotado no livrinho. Durante a primeira semana você também recebe a visita em casa de profissionais de saúde que fazem o teste do pézinho e o teste de audição.

acompanhamento do bebê pós parto

Passada a primeira semana, a midwife vai fazer uma visita na sua casa para ver como está a recuperaçao pós parto e retirar os pontos, caso você tenha levado algum ponto de laceração. A próxima e última consulta com a midwife acontece com 6 semanas depois do parto, para ver se está tudo bem com a mamãe e tirar quaisquer dúvidas, incluindo orientação sobre voltar a usar um método contraceptivo pois mesmo amamentando há o risco de ocorrer ovulação.

Após esse período inicial, o acompanhamento do bebê passa a ser feito por uma instituição governamental chamada GGD (uma sigla para “Serviços de Saúde da Comunidade”. Eles acompanham o desenvolvimento  do bebê (crescimento e saúde em geral) e são responsáveis por toda a vacinação também.

Bom, espero que esse post tenha servido pra matar a curiosidade de quem já ouviu falar sobre gravidez e parto na Holanda e queria saber se era tudo isso que falam mesmo 🙂 pois é, pode acreditar: é tudo isso e muito mais 😀

Update: para não dizer que tudo são flores aqui na Holanda, a licença maternidade / paternidade deixa bastante a desejar. Para a mãe são 16 semanas, até aí OK (nada demais mas também não dá pra reclamar muito), porém o pai só ganha 2 diazinhos! Acho um absurdo :/

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Gravidez Vegana

O veganismo está se tornando mais popular, mas sem dúvida ainda há muita falta de informação e idéias preconcebidas a respeito da dieta vegana. Gravidez vegana, então, acaba virando até polêmica – de repente todo mundo vira doutor em nutrição e fica preocupado com a saúde do bebê em formação. Resolvi falar um pouco sobre esse assunto, já que mantive minha dieta vegana durante toda a gravidez e não tive absolutamente nenhum problema – pelo contrário: minha gravidez foi maravilhosa e atribuo muito disso à dieta vegana.

Primeiramente, um pouquinho da minha história: eu e meu marido nos tornamos vegetarianos (ovo-lacto) ainda no Brasil, há muitos anos atrás. No final de 2015, já aqui na Holanda, resolvemos fazer a transição para a dieta vegana, como um experimento de saúde. Confesso que, apesar de amar os animais, o meu maior motivador foi sim a saúde – quis experimentar por um tempo, sem compromisso, e ver se teria alguma mudança na minha saúde ou bem-estar geral. No primeiro mês, houve uma diferença considerável na minha pele (sempre tive problema com acne, e melhorou bastante), e isso por si só provou pra mim que valeria a pena aderir totalmente ao estilo de vida vegano como um todo. Atualmente me considero ainda em transição, pois apesar de ter feito a transição da dieta com sucesso, ainda uso produtos que não são veganos (cosméticos, produtos de limpeza etc) e essa parte pra mim tem sido a mais difícil, mas aos poucos estou substituindo.

testeOutra coisa aconteceu mais ou menos 1 mês depois: engravidei. Não era esperado, mas veio num momento maravilhoso! Mesmo ficando muito feliz com a notícia, foi muita novidade de uma vez; claro que tive meus medos. Mas o medo da dieta vegana interferir de alguma maneira negativa na minha gravidez passou no mesmo dia que descobri estar grávida! Bastou pesquisar e me informar, buscando pessoas que já passaram por isso. O primeiro vídeo que vi foi um da Ellen Fisher, uma vlogger bem conhecida na comunidade vegana que tem dois filhinhos lindos e mantém uma dieta raw vegan. No vídeo que assisti, ela estava grávida do segundo filho, e compartilhava o que ela comia no seu dia-a-dia. Também assisti alguns outros vídeos, li bastante, e claro, conversei com a minha médica na primeira consulta que fiz assim que descobri que estava grávida. Para minha sorte, o vegetarianismo e o veganismo já deixaram de ser tabu aqui em Amsterdã há muito tempo, por isso não enfrentei nenhuma resistência dos profissionais de saúde que me acompanharam desde o início da gravidez.

Um pouco sobre a Dieta Vegana

Antes de mais nada, é importante esclarecer que dieta vegana não é sinônimo de alimentação saudável. Muita gente acha que veganos só comem salada, o que não é verdade! Existe muita opção de junk food vegana (batata frita por exemplo). Apesar disso, veganos tendem a consumir bem mais fibras, vegetais e frutas diariamente, o que na prática representa uma redução de 33% no risco de morte prematura se comparados a quem segue uma dieta ocidental padrão, segundo esse estudo. Um estudo recente publicado pela universidade de Oxford aponta que por volta de 2050, a adoção generalizada de dietas baseadas em plantas (plant-based) preveniria 8.1 milhões de mortes prematuras por ano, devido a fatores incluindo a eliminação de carne vermelha e carnes processadas, que são classificadas como carcinógicas pela Organização Mundial de Saúde.

Não vou me extender muito aqui, porque seria assunto pra um post isolado, e além disso já existem muitos blogs e sites com esse tipo de informação. Esse artigo por exemplo (em inglês) enumera 57 benefícios da dieta vegana.

Mas e a Proteína?

Essa é a primeira pergunta que a maioria das pessoas fazem quando se toca no assunto do veganismo. Existem diversas fontes de proteína vegetal que podem ser usadas como um melhor substituto à carne, dentre elas podemos citar feijão, lentilha, grão de bico, soja, ervilha… Todas com um teor baixíssimo de gordura, boa quantidade de carboidratos de baixo índice glicêmico e muitas substâncias benéficas para a saúde.

Uma observação importante a se fazer sobre esse assunto é que atualmente existe um excesso generalizado de consumo de proteína, causado principalmente pela popularização de certas dietas e a crença de que é necessário ingerir uma quantidade exagerada de proteína para ganhar músculos. Excesso no consumo de proteínas, especialmente proteína animal, pode causar danos à saúde e até diminuir a expectativa de vida.

Esse é mais um assunto que não é o foco desse post, por isso vou seguir adiante 😉

Agora, voltando à gravidez…

Minha Experiência Pessoal

A falta de estudos confiáveis que comparem uma gravidez vegana com a de uma gestante não-vegana nos deixa apenas uma opção: ouvir de quem já passou por isso e pode compartilhar sua experiência pessoal. Por isso vou compartilhar um pouco sobre a minha experiência.

A minha gravidez foi muito tranquila, tive poucos sintomas chatos e ganhei mais ou menos 14 kg, bem dentro da média. Tive pouco enjôo (basicamente enjoei de algumas comidas e não gostava do cheiro), não tive inchaço nenhum, conseguia dormir bem (só acordava uma vez à noite pra fazer xixi) até o final da gravidez e só sentia dores nas costas quando exagerava um pouco em atividades onde eu precisava me abaixar e/ou levantar algum peso. Nào tive constipação (problema comum na gravidez) em nenhum momento.

Sintomas que tive que são chatos mas totalmente normais: gengivas sangrando ao escover os dentes, vista escurecendo ao levantar (apenas em algumas fases da gravidez quando a pressão está mais baixa), mudança de humor repentina (principalmente no primeiro trimestre, mas durou a gravidez inteira), sono / cansaço (não era constante, mas acontecia com frequência), gases. Já perto do final da gravidez eu sentia mais dores, por causa do peso da barriga, mas nada fora do comum.

Sempre que ia no check-up com a midwife estava tudo ótimo. E com relação ao desenvolvimento da minha bebê, correu tudo muito bem também, ela cresceu normalmente, e até um pouquinho maior que a média (durante a última ultrassom, a médica disse que ela era maior que 60% dos bebês holandeses).

Entrei em trabalho de parto no exato dia em que completava 39 semanas, e minha bebê nasceu de parto natural, na água, o que foi a experiência mais intensa e mais linda da minha vida <3 Ainda vou escrever um post sobre isso 😉 Alice nasceu com 3.630kg. A amamentação tem sido muito bem sucedida, não tive nenhum problema até agora – apenas as dificuldades normais que todo mundo passa, e ainda quero escrever sobre isso também 😀 Agora com quase dois meses, ela já ganhou 1,5kg, com amamentação exclusiva e em livre demanda.

Minha recuperação pós-parto também foi ótima. Com 1 mês eu voltei a fazer atividade física moderadamente e no geral me sinto muito bem (especialmente quando ela me deixa dormir um pouco mais à noite ou quando consigo tirar um cochilo, haha). Já consigo ficar um bom tempo usando o pc no stand-up com ela no wrap/sling, o que é uma malhação por si só 🙂 Até agora perdi 10kg dos 14 que ganhei na gravidez.

antes, durante, depois

No final das contas, o que queria mostrar é que sim, a gravidez vegana é completamente viável, e manter a dieta vegana durante a gravidez não oferece nenhum risco ao bebê ou à mãe, desde que seja mantida uma alimentação saudável, o que é essencial em qualquer gravidez.

Dicas para ter uma Gravidez Vegana Saudável

Essas dicas valem não apenas para quem segue uma dieta vegana, mas também para qualquer grávida.

1.Alimentação Equilibrada

Como já comentei mais de uma vez nesse post, dentro das coisas que está no nosso controle, ter uma alimentação equilibrada é o item mais importante para se ter uma gravidez saudável. É a base de tudo. É importante se desapegar da idéia de que você tem que comer por dois. O que se recomenda é que no primeiro trimestre não há necessidade de aumentar a ingestão calórica, no segundo trimestre você deve comer mais ou menos 300 calorias a mais, e no terceiro trimestre isso sobe pra 500 calorias. Porém, essa informação é muito vaga; 300 calorias de quê? É claro que faz diferença com o que você vai “gastar” esse extra. Trezentas calorias de fast food / comidas cheias de açúcar não vão nutrir o seu corpo da mesma maneira que 300 calorias de verduras, legumes e frutas.

No primeiro trimestre, por causa dos enjôos, é comum até perder um pouco de peso (mas não muito – fique atenta). Nessa fase vale apelar pras comidas “de conforto”, mas é importante tentar incluir algumas coisas mais nutritivas no meio. Eu enjoei de feijão, lentilha, grão de bico… Um problema pra quem segue uma dieta vegana, né? O que eu fiz foi consumir mais tofu e outras coisas de soja que complementariam a ingestão de proteína, como veggie burgers, seitan tipo carne moída e outras coisas prontas e fáceis de preparar. Comi muita batata. Comia batata quase todo dia, de vários jeitos diferentes. Comia batata frita e Pringles também, e até Oreo (o clássico é vegano). A vontade de comer essas coisas foi diminuindo à medida que a gravidez progrediu, mas sempre sentia a necessidade de comer muito carbo – massas (integral na maioria das vezes) e batata principalmente.

Lá pelo segundo trimestre teve muito burrito vegano e outras variações de comida mexicana. No terceiro trimestre eu voltei a comer mais saladas e naturalmente quis comer mais saudável.

Durante toda a gravidez o meu café da manhã teve smoothie de frutas (a gente usa blueberry, morango, banana e framboesa) com uma dosagem de proteína vegana de ervilha e leite vegetal (de soja, de amêndoa, de côco… varia). Esse smoothie é nossa tradição aqui em casa desde bem antes da gravidez, especialidade do meu marido que faz todos os dias até hoje. Smoothies são uma delícia e uma forma bem prática de incluir nutrientes e calorias extras por isso é uma excelente opção principalmente para o primeiro trimestre. Se você está tendo dificuldade para ganhar peso, uma boa dica é incluir um ou dois smoothies durante o dia.

No final do post eu compartilhei alguns exemplos de coisas que comi durante a gravidez.

2. Vitamina Pré-Natal (Ferro, Ácido Fólico)

Desde que tive a primeira consulta com a médica de família (antes de ser “redirecionada” para a midwife, que aqui substitui obstetra em gravidez de baixo risco) eu comecei a tomar vitamina pré-natal, sob orientação da médica. Essa vitamina contém ferro, ácido fólico, vitamina D e vitamina B12, todos importantes para a formação do bebê. Continuo tomando, já que também é importante durante a amamentação.

3. Atividade Física

Isso você com certeza já ouviu, mas vale repetir… é importante se manter ativa durante a gravidez, desde que não haja nenhuma contra-indicação médica. Eu confesso que poderia ter me exercitado mais, especialmente no terceiro trimestre. Eu me mantive ativa principalmente no segundo trimestre, quando me sentia super bem e com bastante energia (o segundo trimestre é o melhor nesse quesito!). Mantive meus treinos de musculação diariamente, mas com carga bem reduzida – isso é importante. Tem que pegar leve. Durante a gravidez você tem que mudar o seu foco pra manutenção, malhar / se exercitar pra o bem estar, e não pra emagrecer ou ganhar músculos.

4. Prestar Atenção no Ganho de Peso

Não precisa se estressar ou ficar obcecada com contagem de calorias e quanto está ganhando de peso, mas é bom acompanhar o ganho de peso a partir do segundo trimestre pra ter certeza que está comendo o suficiente. Pessoas que seguem uma dieta raw vegan podem ter maior dificuldade em ganhar peso, porque naturalmente a dieta raw é bem baixa em calorias, você precisa realmente aumentar a ingestão para compensar. No meu caso eu não tive esse problema, eu não contei calorias mas fiquei monitorando o peso porque no começo perdi uns quilos. Comia quando tinha vontade, não me privei de nada pra falar a verdade.

Na minha opinião, além de todos os benefícios em termos de saúde da dieta vegana, existe também o fator de limitar a quantidade de opções e fazer você prestar mais atenção no que come, bem como evitar comer por impulso. Quando se tem muita opção, fica mais difícil manter um controle, pelo menos pra pessoas como eu. Antigamente eu comia muito por impulso; se alguém oferecesse algo, me sentia na obrigação de comer. Muitas vezes comia sem estar com fome só por causa de circunstâncias sociais. Hoje eu digo “desculpe, sou vegana” e me sinto muito bem com isso 🙂 às vezes nem digo nada, apenas que não quero mesmo (mas o fato de ser um alimento não vegano me dá tipo um alívio, porque não vou ficar meia hora na indecisão se devo comer ou não).

O que eu comi durante a gravidez

Alguns exemplos do que eu comia durante a gravidez 🙂

comida vegana exemplos

  1. Smoothie simples de banana, morango e kiwi. Smoothies são uma ótima opção especialmente no primeiro trimestre, quando você pode enjoar de comer algumas coisas.
  2. Risoto simples de mushroom e rúcola com tempeh. Cogumelos são ricos em proteína e vitamina B12.
  3. Nice cream – parece sorvete, mas não é 🙂 Essa sobremesa é feita com bananas congeladas, cacau em pó, e gostamos de adicionar também manteiga de amêndoa ou amendoim, cacau nibs e um pouquinho de proteína de erviha. Tudo batido no liquidificador. Mas dá pra fazer as maiores variações, usando a criatividade 🙂 A base vai ser sempre a mesma, banana bem madurinha congelada.
  4. Falafel de grão de bico com salada e molhinhos veganos. Isso aí foi num restaurante vegano na Bulgária, mas falafel geralmente é vegano, e é fácil de fazer em casa.
  5. Esse aí eu chamei de “Wrap do amor”, porque é bom demais e bem simples. Banana assadinha com manteiga de amendoim crocante 🙂 Eu viciei em manteiga de amendoim crocante, comia todo dia, com pão, com banana…
  6. Pra matar a saudade do latte e do café (cafeína é aconselhado cortar durante a gravidez) eu ia de vez em quando na Starbucks e pedia um latte descafeinado com leite de soja.
  7. Cuzcuz com uma mistureba que eu inventei usando soja (tipo PTS), brócolis, pimentão vermelho, tomate e milho verde. Fica bom demais!
  8. De vez em quando batia a vontade de comer um negócio assim bem “trash” mesmo, então achamos esse restaurante aqui que tem o melhor veggie burger de Amsterdam na minha opinião. A batata frita assim bem grossa é comum por aqui.
  9. Esse prato é meio estilo mexicano, também adorava fazer. Basicamente é uma camada de salada e uma “mistureba” refogada parecida com a do n. 7, mas usando feijão preto e tofu mexido. O tofu mexido fica parecendo ovo mexido, é só despedaçar ele direto na frigideira e colocar vários temperinhos. Dica: adicione cúrcuma pra dar a cor e um tempero especial. Por cima, abacate em pedacinhos. O abacate é muito versátil, a gente come praticamente todos os dias aqui.

Espero que esse post possa ajudar quem tem dúvidas sobre a gravidez vegana. Se você tiver alguma outra dúvida, ou se quiser sugestões de receitas e coisas do tipo, pode perguntar nos comentários, tentarei ajudar 🙂

Bebês/ Gravidez

Carta para minha menininha

Minha menininha,

Nós passamos por uma jornada e tanto juntas! Nove meses de mudanças e desevolvimento incríveis. Me lembro como se fosse ontem o dia em que descobri que estava grávida de você; tantas incertezas, mas o coração transbordando de alegria e euforia por essa nova aventura em nossas vidas.

O dia em que vamos finalmente nos conhecer está bem perto. Me sinto ansiosa e animada, mas não se apresse: eu estarei pronta quando você estiver pronta. Meu ventre em breve não terá mais espaço suficiente pro seu corpinho que está crescendo, então você saberá que é hora de iniciar a sua grande aventura no mundo exterior.

É surreal imaginar que o corpo que tem sido minha casa por tantos anos pôde “fabricar” vida e ser casa pra você por 9 meses. Têm sido fantástico ver esse corpo mudando, minha barriga crescendo cada vez mais, e acima de tudo, sentir você mexendo. Cada vez que isso acontece é como um lembrete de que você está aqui comigo de verdade, que não é um sonho! Me enche de alegria e de amor. Mas a minha jornada nesses 9 meses não é nada comparada à sua; de uma célula minúscula para um bebê, uma pessoinha completa.

Mesmo com todo o progresso da ciência e nossas espiadas pra ver o que está acontecendo aí dentro, esse processo todo de se formar uma nova vida é envolto em mistério. Como você se sente? Você pode mesmo reconhecer a minha voz? Como é a vida aí dentro, e quando foi que você se tornou consciente? Você pode sentir meu amor?

Eu sei que alguns dias (e noites) serão desafiadores. Eu sei que a minha vida vai mudar pra sempre, em formas e aspectos que eu não tenho como prever agora. Mas, acima de tudo, eu sei que essa experiência de amor puro é a maior bênção na vida de alguém, e eu não poderia estar mais pronta.

Você pode ter certeza de uma coisa: tudo o que eu fizer, mesmo quando não der certo – o que vai acontecer às vezes – vai ser tentando fazer o melhor, por você. Espero que eu possa ensinar a você o que eu aprendi sobre a vida; e espero que você possa me ensinar quais dessas lições foram realmente importantes.

Com amor,

Mamãe

 


Esse post eu escrevi originalmente em inglês pro meu outro blog, o codingmama.io, quando estava na semana 38 da gravidez. 🙂 Agora resolvi compartilhar essa versão em português.