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Bebês/ Gravidez/ Maternidade

Comparação e impaciência: ladrões da felicidade

Qual é o segredo para uma maternidade mais positiva? O que pode ajudar mães de primeira viagem a terem uma experiência mais leve e harmônica? Rede de apoio, divisão das tarefas domésticas, familiares que respeitam as escolhas dos pais, amigos que ouvem sem julgar… Existem muitas coisas, pequenas e grandes, que podem ajudar o dia-a-dia de uma mãe. Mas uma mãe pode ter todas essas coisas e ainda assim não se sentir feliz, bem como uma mãe pode ser feliz e realizada (mesmo em meio às dificuldades) sem ter nada disso. O que eu queria falar mesmo aqui era sobre duas coisas que roubam toda a sua energia e a sua felicidade; essas duas coisas estão relacionadas, se aplicam a todos, porém são muito gritantes para as mães e em especial as mães de primeira viagem: *comparação* e *impaciência*. 

Pense em toda a sua vida até aqui, e como cada pequena decisão que você tomou influenciou na sua jornada até esse momento, construindo o que você é hoje. Você é um ser único, com experiências pessoais únicas. Quando juntamos todos os indivíduos da família, cada um com suas experiências únicas, e um bebê que também tem suas necessidades únicas, temos uma dinâmica que é como uma impressão digital, um floco de neve… tão exclusiva que nenhuma outra família terá igual. Então como ainda teimamos em fazer comparações, entre famílias e bebês? É claro que, olhando de fora, a grama do vizinho sempre vai ser mais verde. Você não conhece os desafios daquela família, daqueles indivíduos. 

O bebê da vizinha dorme a noite toda! Mas ele já tem 10 meses e ainda não engatinha. A bebê da prima começou a engatinhar com 6 meses, come de tudo, mas acorda 10 vezes durante a noite. O bebê da amiga toma leite artificial, está se desenvolvendo normalmente mas não quer comer sólidos. O que todos esses bebês têm em comum? Uma mãe que sofre e até se culpa por alguma razão que está totalmente enraizada em comparações. Quando, na realidade, não há nada de anormal em nenhum dos casos, apenas bebês diferentes que nasceram em lares diferentes, com dinâmicas diferentes. 

A impaciência vem de não saber esperar o tempo da natureza, o tempo do bebê. Mais uma vez, essa impaciência de querer ver o bebê andando e falando com 6 meses é fruto da comparação, por isso as duas coisas estão relacionadas. E somos tão impacientes que até na gestação queremos interferir, agendando cesáreas e decidindo pelo bebê quando é a hora certa pra nascer… 

A comparação e a impaciência são ladrões da felicidade. Porque direcionam tua energia para o exterior, tiram o teu foco das coisas que são importantes e te impedem de viver o momento presente. É preciso muita vigilância para manter esses ladrões fora da tua casa; é uma luta diária que alguns dias ganhamos, outros dias perdemos. Mas é importante continuar lutando. 

Viver no presente; conectar-se ao seu bebê e suas necessidades únicas, inerentes à sua personalidade e individualidade; silenciar os julgamentos e a culpa; respeitar o tempo da natureza; exercitar a gratidão. Essas são as batalhas diárias de uma maternidade positiva. 

Gravidez/ Maternidade

Por uma maternidade mais positiva 

Maternar é difícil sim. Rola medo, insegurança, uma puta solidão… E cansaço, muito cansaço. Isso aí é o pacote padrão. Acontece que cada pessoa tem uma experiência de vida muito particular, e existe uma série de fatores que podem ajudar ou atrapalhar na vivência da mulher que se torna mãe – esses são os “extras”: situação financeira, rede de apoio (ou ausência total de uma), saúde (física e mental), participação do pai na criação do bebê, educação /acesso a informação de qualidade, e até mesmo a forma que aquela mulher mãe vivenciou a experiência do parto. Uma mulher que sofre violência obstétrica tem mais chances de ter dificuldades iniciais com a amamentação e problemas na recuperação pós parto, o que certamente irá deixar muitas impressões negativas em sua experiência como um todo. 

Mas deixa eu te dizer uma coisa: na verdade, não é que a maternidade seja difícil. *Viver* é difícil. Na maternidade a gente se dá mais conta disso, porque fica tudo muito exposto, à flor da pele: sentimentos muitas vezes contraditórios, incertezas, culpa. Tudo potencializado pelo desejo de fazer sempre o melhor pela cria. Claro que, da mesma forma que os sentimentos negativos são potencializados, os sentimentos positivos são se transbordar o coração: amor, de um jeito que você nunca imaginou. Devoção. Gratidão. Um sentimento de estar (quase) sempre maravilhado pela mágica que é o desenvolvimento de um bebê. 

A forma que a gente encara isso tudo é que faz a diferença. No dia em que você enxergar as dificuldades da vida como um mecanismo de aprendizado e melhoramento pessoal, quando você conseguir extrair o que cada experiência tem a te ensinar e o lado positivo de cada coisa, você se sentirá livre. Livre, porque você sai de uma posição de vítima para uma posição de poder, de protagonista. 

“Ah, mas isso que estou passando não está certo, não é justo comigo.” Quando a gente se apega a esse pensamento, ficamos inertes, e com a inércia não tem mudança, não tem progresso. É como se tivesse uma âncora presa nos nossos pés. Eu sei que isso parece papo de auto-ajuda, mas que seja, porque não tem coisa melhor que enxergar um padrão que se repete na nossa vida e conseguir modificá-lo. 

Vai ter momento difícil? Vai. Tem como ser “zen” o tempo inteiro? Eu não sei, eu mesma não consigo. Mas tento. Respiro fundo, penso em soluções. Plano A, plano B, plano C. “Putz, não acredito que ela já acordou. Tá cedo demais pra pensar”. Respira, não pensa muito então. Olha bem pro rostinho desse bebê, e lembra que daqui uns anos tudo será diferente e você sentirá saudades… 

Gravidez

A sua barriga jamais será a mesma

Uma das coisas que a gente ouve e nos dá medo quando estamos grávidas pela primeira vez é que “a sua barriga jamais será a mesma”…

Sim, a minha barriga nunca mais será a mesma de antes. Antigamente, quando passava as mãos pela minha barriga, eu sentia por vezes vergonha ou insegurança. A relação que tinha com o meu corpo não era saudável: eu me sentia incapaz, por não alcançar o ideal das revistas. Hoje, quando passo as mãos pela minha barriga, eu sinto orgulho! Sinto uma extrema admiração pelo meu corpo, por ter sido um casulo perfeito, capaz de gerar um ser humano e sustentá-lo por 9 meses. Me vêm apenas lembranças boas, e até saudades… Como era bom sentir a vida crescendo na minha barriga! Tanto movimento, tanta expectativa. Acordar com pequenos chutes, tentando adivinhar a posição em que o bebê estava. 

Sim, a minha barriga nunca mais será a mesma de antes. Quando olho no espelho, não vejo uma pele flácida ou estrias; vejo um receptáculo fantástico que abrigou o meu bebê por 9 meses. Vejo uma máquina maravilhosa de criar e sustentar vida, aperfeiçoada por milhões de anos de evolução, capaz de transformar minúsculas células em um ser humano perfeito, novo em folha. 

Eu não sinto vergonha das minhas marcas: pelo contrário. Carrego-as com o orgulho de quem de repente descobriu uma força oculta, um poder que estava adormecido. Meu corpo é fantástico!

Maternidade

Romantização x Demonização

Ultimamente tenho visto cada vez mais textos e postagens nas redes sociais criticando e combatendo a romantização da maternidade. Na verdade, salvo um post aqui e ali falando positivamente sobre o ofício de ser mãe e o amor incondicional que a gente descobre, os posts que mostram as dificuldades e sofrimentos da maternidade, muitas vezes ilustrados por imagens de “expectativa vs realidade” são a maioria! Então, será que estamos mesmo vivenciando uma romantização da maternidade, ou esses valores já se inverteram sem que a gente se desse conta, e agora o que está em alta mesmo é a demonização da maternidade? 

Eu não sei, mas acredito que precisamos buscar um ponto de equilíbrio entre esses dois extremos. Maternar é difícil, mas quem disse que viver, no geral, seria fácil, somente curtição? A vida é cheia de desafios e etapas, e é exatamente nesse caminhar que aprendemos a ser pessoas melhores. É nisso que acredito; acho que a evolução e melhoramento como indivíduo é o ofício do ser humano, o fato de sermos seres inteligentes nos traz imensa responsabilidade. 

O bom da maternidade é que você tem 9 meses pra se preparar. Isso é quase um ano! A natureza é muito sábia, por isso não traria uma mudança desse calibre na sua vida de um dia pra noite. Então, ao invés de absorver toda a negatividade dos que demonizam a maternidade ou se alienar com a superficialidade das otimistas congênitas,  procure informação real, fatos. Procure relatos de experiências pessoais também, mas sempre tendo em mente que todo mundo tem experiências diferentes. Leia um bom livro sobre amamentação, mas não esqueça que o parto e as intervenções sofridas pela mãe e pelo bebê também vão influenciar o sucesso da amamentação. E quando o parto empodera a mulher, imagina como isso influencia o puerpério? Está tudo conectado. Mas não acredite em mim, busque se informar de verdade. Esse é o preparo. 

Primeiro se empodere com conhecimento, para que depois possa se empoderar com a experiência. 

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Mamãe: seja como a água

Se pudesse dar um conselho a mim mesma enquanto grávida, eu diria: “futura mamãe, seja como a água!”

Como diz Bruce Lee em uma cena famosa do seu filme ‘Enter the Dragon’ :

“Esvazie sua mente de modelos, formas, seja amorfo como a água. Você coloca a água em um copo, ela se torna o copo. Você coloca a água em uma garrafa, ela se torna a garrafa. Você coloca ela em uma chaleira, ela se torna a chaleira. A água pode fluir, a água pode destruir. Seja água meu amigo.”

E sabe por que isso é tão importante para a mamãe de primeira viagem? Porque cuidar de um bebê, especialmente um recém nascido, é sempre uma caixinha de surpresas. Não é possível prever, estabelecer rotinas, seguir horários à risca. Mesmo quando você já se sente segura o suficiente para fazer planos, precisa sempre de plano A, B, C… Porque tem dias que o bebê dorme cedo, ou tarde demais. Acorda antes ou depois do previsto. Tem dias que o bebê precisa de mais, ou menos atenção. Haverá saltos de crescimento, quando o bebê sentirá a necessidade de mamar o tempo todo. Haverá também dias em que o bebê simplesmente não está de bom humor, coisa que acontece com gente grande também! Além disso, o método infalível pra fazê-lo dormir hoje pode não funcionar amanhã ou depois. Bebês se formam na água, e com ela aprendem a fluir desde cedo: pedem o que necessitam sob demanda, não porque querem te manipular ou controlar tua vida, mas porque precisam, e ponto final. Eles não seguem uma agenda.

Alguns dias, talvez você não consiga comer na hora que deseja. Talvez você não consiga tomar banho ou até escovar os dentes; pode ser que você passe o dia de pijama, e dificilmente consiga ir ao banheiro. E se você não fluir como a água, mamãe, você sofrerá! Sofrerá por não se sentir no controle, por tentar em vão manter uma forma sólida quando o que o bebê pede de ti é a flexibilidade de estar ali com ele, se moldar a ele e deixar fluir.

Quando você sentir que está tendo um dia “daqueles”, os ombros tensos e rígidos, a mente numa espiral de ansiedade torcendo pra que o bebê durma logo e você consiga resolver uma pendência ou simplesmente tomar um banho, feche os olhos, respire fundo três vezes e diga pra si mesma: “hoje eu serei como a água!”

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Carta para minha menininha

Minha menininha,

Nós passamos por uma jornada e tanto juntas! Nove meses de mudanças e desevolvimento incríveis. Me lembro como se fosse ontem o dia em que descobri que estava grávida de você; tantas incertezas, mas o coração transbordando de alegria e euforia por essa nova aventura em nossas vidas.

O dia em que vamos finalmente nos conhecer está bem perto. Me sinto ansiosa e animada, mas não se apresse: eu estarei pronta quando você estiver pronta. Meu ventre em breve não terá mais espaço suficiente pro seu corpinho que está crescendo, então você saberá que é hora de iniciar a sua grande aventura no mundo exterior.

É surreal imaginar que o corpo que tem sido minha casa por tantos anos pôde “fabricar” vida e ser casa pra você por 9 meses. Têm sido fantástico ver esse corpo mudando, minha barriga crescendo cada vez mais, e acima de tudo, sentir você mexendo. Cada vez que isso acontece é como um lembrete de que você está aqui comigo de verdade, que não é um sonho! Me enche de alegria e de amor. Mas a minha jornada nesses 9 meses não é nada comparada à sua; de uma célula minúscula para um bebê, uma pessoinha completa.

Mesmo com todo o progresso da ciência e nossas espiadas pra ver o que está acontecendo aí dentro, esse processo todo de se formar uma nova vida é envolto em mistério. Como você se sente? Você pode mesmo reconhecer a minha voz? Como é a vida aí dentro, e quando foi que você se tornou consciente? Você pode sentir meu amor?

Eu sei que alguns dias (e noites) serão desafiadores. Eu sei que a minha vida vai mudar pra sempre, em formas e aspectos que eu não tenho como prever agora. Mas, acima de tudo, eu sei que essa experiência de amor puro é a maior bênção na vida de alguém, e eu não poderia estar mais pronta.

Você pode ter certeza de uma coisa: tudo o que eu fizer, mesmo quando não der certo – o que vai acontecer às vezes – vai ser tentando fazer o melhor, por você. Espero que eu possa ensinar a você o que eu aprendi sobre a vida; e espero que você possa me ensinar quais dessas lições foram realmente importantes.

Com amor,

Mamãe

 


Esse post eu escrevi originalmente em inglês pro meu outro blog, o codingmama.io, quando estava na semana 38 da gravidez. 🙂 Agora resolvi compartilhar essa versão em português.